quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SUÍCA NÃO DOA SANGUE


Ninaldo Valejo Pinto
Ensaio dez2010.

Como em todas as Vilas, principalmente as Vilas praianas, alguns andarilhos errantes, intencionais ou não, às vezes até fugindo do estresse, chegam e procuram uma sombrinha para descansar da viagem, que em muitos casos não teve origem certa e necessariamente ainda não tem destino determinado.
Alguns “viajantes”, chegam, descansam e resolvem que está ali o destino da sua viagem, tanto pela beleza do lugar como pela hospitalidade do povo que, de água fresca, um pouco de comida, roupas e até umas pingas para alegrar ou esquecer alem do cigarrinho do bem, os do mal eles conseguiam nas plantações hippies. Esses viajantes, muitas vezes viram ícones dessas Vilas e do tempo que passam e dependendo da fama do lugar, eles também “viajam” na fama e ganham até uma história.
Arembepe, a mais bela de todas as Vilas, entre os anos 70 e 80 recebeu muitos desses “viajantes”, uns atraídos pela paisagem paradisíaca outros pela hospitalidade do povo que se misturava com o modo de vida hippie instalado naquela Vila e outros ainda por não ter ou saber para onde ir e de onde partiram.
Chega, nessa época, não sei de onde, um novo hóspede, que não era hippie, mas que vivia de modo semelhante, nada trouxe a não ser a sua alegria e suas “artes” que não incomodando aquele povo “inincomodável”, permitam-me a criação, até se tornaria uma figura quase folclórica, mesmo dentro daquela Vila cheia de muitas histórias folclóricas,
Vivia o Sr. Luiz Carlos, ou SUÍCA, como preferia ser chamado, de fazer pequenos favores e merecer muitas benesses, comida, bebida, uns trocadinhos, uma pinga aqui, outra ali e assim os dias erram de pingas,tragos, gracejos e folclores: Para dormir a grande e frondosa amendoeira no centro da praça já tinha seus hóspedes e nas noites mais frias as lonas das veles dos saveiros na praia servia de pensão. Vivia assim o nosso ilustre personagem, com mais pinga ficava mais cheio de artes e assim a Vila se acostumou com as suas “maluquices”, sim, já havia naquela época um grupo de viajantes não hippies, ao Suíca ele este denominava o grupo de “sindicato”; O sindicato, era solidário desde aquela época, desde as roupas, comidas, pingas recebidas eram partilhadas e o SUICA tornou-se um líder daquele “sindicato”, era ele quem mais “arrumava” as pingas, motivo pelo qual viviam sóbrios a maior parte do dia.
Passando um final de semana comigo, que dividia a minha morada com aquela Vila, estava o Sr. Arnaldo Pinto, o meu Pai e sempre ele observava a atuação dos “sindicalistas” e até contribuía com alguns agasalhos para o grupo. Estava nesta época uma ambulância do Serviço Hematologia e Hemoterapia do Governo do Estado da Bahia, fazendo uma campanha de doação de sangue e a ambulância estava parada bem na praça principal onde a fila de doadores se formava e o meu Pai virou-se para o SUICA, que lhe pedia uma “grana”, e sugeriu que o mesmo fizesse a doação, pois era um ato de fraternidade e poderia salvar muitas vidas.
Atencioso como sempre, o SUICA entrou na fila, neste dia ainda não estava com aspecto de “bebum”, usava uma roupa semi-nova e apresentava um ar de saúde, pele corada, rosto meio gordinho, certamente que pelas pingas da semana: A enfermeira anota o seu nome: Luiz Carlos Santos – SUÍCA, a pedidos e pronto, retira aquele milagroso sangue do nosso personagem.
Após o procedimento de praxe, quando se dirigia para tomar o cafezinho com biscoito que era oferecido aos doadores, o nosso SUICA desmaia, é atendido pela equipe de plantão, conduzido ao hospital de Camaçari, sede do Município, recebe 5 bolsas de sangues devido a sua profunda anemia e após 2 dias de “hospedagem” no hospital, volta para o convívio da Vila de Arembepe que estava preocupada e o sindicato em estado de GREVE. O Sr. Arnaldo até tentou ajudar na campanha, mas, sem querer pode ter salvado a vida do nosso personagem. Outras artes o SUICA aprontou, mas, isso é outra história. A amendoeira ainda está lá, para comprovar o fato.

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