Ninaldo Valejo Pinto
Ensaio dez2010.
Como em todas as Vilas, principalmente as Vilas praianas, alguns andarilhos errantes, intencionais ou não, às vezes até fugindo do estresse, chegam e procuram uma sombrinha para descansar da viagem, que em muitos casos não teve origem certa e necessariamente ainda não tem destino determinado.
Alguns “viajantes”, chegam, descansam e resolvem que está ali o destino da sua viagem, tanto pela beleza do lugar como pela hospitalidade do povo que, de água fresca, um pouco de comida, roupas e até umas pingas para alegrar ou esquecer alem do cigarrinho do bem, os do mal eles conseguiam nas plantações hippies. Esses viajantes, muitas vezes viram ícones dessas Vilas e do tempo que passam e dependendo da fama do lugar, eles também “viajam” na fama e ganham até uma história.
Arembepe, a mais bela de todas as Vilas, entre os anos 70 e 80 recebeu muitos desses “viajantes”, uns atraídos pela paisagem paradisíaca outros pela hospitalidade do povo que se misturava com o modo de vida hippie instalado naquela Vila e outros ainda por não ter ou saber para onde ir e de onde partiram.
Chega, nessa época, não sei de onde, um novo hóspede, que não era hippie, mas que vivia de modo semelhante, nada trouxe a não ser a sua alegria e suas “artes” que não incomodando aquele povo “inincomodável”, permitam-me a criação, até se tornaria uma figura quase folclórica, mesmo dentro daquela Vila cheia de muitas histórias folclóricas,
Vivia o Sr. Luiz Carlos, ou SUÍCA, como preferia ser chamado, de fazer pequenos favores e merecer muitas benesses, comida, bebida, uns trocadinhos, uma pinga aqui, outra ali e assim os dias erram de pingas,tragos, gracejos e folclores: Para dormir a grande e frondosa amendoeira no centro da praça já tinha seus hóspedes e nas noites mais frias as lonas das veles dos saveiros na praia servia de pensão. Vivia assim o nosso ilustre personagem, com mais pinga ficava mais cheio de artes e assim a Vila se acostumou com as suas “maluquices”, sim, já havia naquela época um grupo de viajantes não hippies, ao Suíca ele este denominava o grupo de “sindicato”; O sindicato, era solidário desde aquela época, desde as roupas, comidas, pingas recebidas eram partilhadas e o SUICA tornou-se um líder daquele “sindicato”, era ele quem mais “arrumava” as pingas, motivo pelo qual viviam sóbrios a maior parte do dia.
Passando um final de semana comigo, que dividia a minha morada com aquela Vila, estava o Sr. Arnaldo Pinto, o meu Pai e sempre ele observava a atuação dos “sindicalistas” e até contribuía com alguns agasalhos para o grupo. Estava nesta época uma ambulância do Serviço Hematologia e Hemoterapia do Governo do Estado da Bahia, fazendo uma campanha de doação de sangue e a ambulância estava parada bem na praça principal onde a fila de doadores se formava e o meu Pai virou-se para o SUICA, que lhe pedia uma “grana”, e sugeriu que o mesmo fizesse a doação, pois era um ato de fraternidade e poderia salvar muitas vidas.
Atencioso como sempre, o SUICA entrou na fila, neste dia ainda não estava com aspecto de “bebum”, usava uma roupa semi-nova e apresentava um ar de saúde, pele corada, rosto meio gordinho, certamente que pelas pingas da semana: A enfermeira anota o seu nome: Luiz Carlos Santos – SUÍCA, a pedidos e pronto, retira aquele milagroso sangue do nosso personagem.
Após o procedimento de praxe, quando se dirigia para tomar o cafezinho com biscoito que era oferecido aos doadores, o nosso SUICA desmaia, é atendido pela equipe de plantão, conduzido ao hospital de Camaçari, sede do Município, recebe 5 bolsas de sangues devido a sua profunda anemia e após 2 dias de “hospedagem” no hospital, volta para o convívio da Vila de Arembepe que estava preocupada e o sindicato em estado de GREVE. O Sr. Arnaldo até tentou ajudar na campanha, mas, sem querer pode ter salvado a vida do nosso personagem. Outras artes o SUICA aprontou, mas, isso é outra história. A amendoeira ainda está lá, para comprovar o fato.
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