terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SANTO DE CASA


Ninaldo Valejo Pinto

Ensaio – jan-2011

Eu ainda estava na puberdade, naquele estado em que um adolescente “capta tudo no ar”, digo, não tira a pulga de trás da orelha e quando o assunto é namoro, então, ninguém tem tanta energia quanto um jovem na puberdade.

Era uma época em que o Anselmo Duarte andava fazendo uns filmes e o Glauber Rocha já andava metido com cinema, etc. Nós, os adolescentes nem sonhávamos com o glamour do meio artístico, pois, nossos heróis eram americanos, francesas, a minha preferida então era a Brigit Bardot, ah! A essa eu devo muitos momentos de êxtase e alegrias.

Mas, havia um zum zum zum de que o meu Pai andava bamdeando para o lado de uma dessas estrelas cinematográficas que morava na mesma rua nossa e eu, garboso talvez pela garanheza do meu Pai, curti a maior simpatia pela estrela e tudo fazia para uma aproximação com a grande beldade, sempre que passava pela sua casa, e tinha a sorte de encontrá-la debruçada sobre uma almofada no peitoril da janela oferecia um sorriso festivo de boas vindas e sempre era correspondido. Na realidade mesmo eu queria era descobrir se era verdade o caso que andavam alardeando a “boca miúda” lá pelo bairro de que O Sr. Pinto, o Pinto Pai, estava de namorico com a formosura estrelar.

O meu Pai sempre foi um homem que arrumava tudo em casa, fosse serviço de carpintaria, pintura, hidráulica, reparos de rádio e eletricidade então era um especialista, mas, me pareceu que andava meio ocupado fazendo umas horas extras e assim, chamou o Sr, Anísio, encanador conhecido para a instalação de uma torneira na cozinha lá de casa e necessitava aquelas soldas nos tubos de chumbo, etc; Apesar de meu Pai ter todos aqueles equipamentos em casa, e saber a arte de realizar os serviços, preferiu contratar os serviços de um profissional.

Voltava eu da escola no finalzinho da tarde e desde o início da rua procurava para me certificar se a linda moldura da janela guardava aquela beldade e lá estava ela e me pareceu um tanto preocupada e acertei, estava precisando do auxílio de alguém para segurar uma escada para um serviço que estava sendo executado no seu banheiro.

- Você pode me fazer um favorzinho???

-Pois não, respondi.

-Entre aqui, por favor.

O coração batia a 240 acho que por segundo, deixei os livros no batente da porta principal e entrei naquela casa que cheirava a beleza e me dirigi para o local onde prestaria o grane favor.

- Aqui no banheiro, por favor.

O coração disparou, era uma batida só e eu dizia com meus botões:

-Ai meu Deus, é hoje!!

Ao chegar à porta do banheiro, qual não foi a minha surpresa e estava o meu Pai lá pendurado, maçarico aceso na mão, trepado numa escada colocando um ponto de água no banheiro da Dona Diva Staff, ah!!! Que homem prestativo este meu Pai, pensei. Pedi a bênção e obedecendo as instruções de Dona Diva, segurei a escada com muito cuidado e finalmente o coração foi se acalmando, era o ajudante preferido quando ele realizava aquelas tarefas lá em casa.

Realizamos o serviço, meu Pai se arrumou, após um banho, colocou o seu paletó que estava sobre uma poltrona que havia no quarto da Dona Staff, despediu-se e fomos para casa. Nem me dei conta que ela havia guardado os meus livros e ao chegar em casa, acompanhado com o meu Pai, esse detalhe passou despercebido.

Vocês devem esta se perguntando qual foi a conversa que houve entre a casa da beldade e a minha casa, lógico, vocês acertaram, - Foi apenas um favor, coitada ela não tem quem faça esses serviços para ela e me pediu para arrumar um encanador, então me ofereci, disse o prestativo Pai.

-É bom que a sua Mãe não saiba para não criar problemas para a pobre “moça” , completou.

Aprendi desde cedo a guardar segredo e encerrei o caso.

À noite, enquanto inspecionávamos o serviço que o seu Anísio fez, perguntei em voz bem baixa:

- Pai, porque o senhor não fez esse serviço aqui em casa?

- SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE MEU FILHO.

Calei e lembrei que a Dona Diva não me agradeceu o favor e mais, mudou-se para São Paulo pouco tempo depois deixando o chuveiro novinho em folha, eu curioso e o Sr. Pinto, saudoso, talvez.

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